Entre dois mundos

Apenas um partilhar pessoal:


Estou agora fisicamente num situação curiosa. Neste momento estou sentado entre as mesmas problemáticas que a minha mente se também se senta. Numa sala o departamento de Medicina da Universidade de Coimbra tenho à minha frente um Professor da Universidade de Valência mostrando-nos como podemos classificar tumores por RMN, através de estudos de perfis metabólicos. Ao meu lado, do lado de fora da janela, tenho a Sé Nova, possivelmente a maior e mais importante igreja de Coimbra. Uma estrutura imponente, imperial, que apela ao patriotismo, à santidade, à grandeza de uns, à pequeneza de outros. Numa imposição de fé e obediência.
Dentro da sala está um senhor, que de santo nada tem, a transmitir conhecimento aos mais novos, a explicar como a vida ocorre, como podemos melhorá-la, aprender com ela. Há espaço para a discussão, a dúvida, o diálogo, a união entre mentalidades. Não há patriotismo, não há grupos nem exclusões, apenas igualdade, vontade, incentivo, interesse, união de todos como um só que sabe conviver com as outras espécies, com o Universo. Porque o que aqui se está a desenvolver não é para curar cristãos, nem ateus, nem portugueses, nem espanhóis, é para a humanidade, para todos, sem restrições.

Mas a fachada está lá fora… e as imagens do cérebro na sala.

9 Responses to Entre dois mundos

  1. Kalenda diz:

    Para sermos felizes temos que estar satisfeitos a nivel:

    – físico
    – emocional
    – social
    – intelectual
    – espiritual

    Pergunto eu ? Isto que acabei de dizer é religião, tecnologia, politica, filosofia, …? O que é?

  2. 4zbruno diz:

    João é o teu ponto de vista, quem está dentro da igreja a olhar pela janela terá o seu, e quem estiver no meio da rua igualmente o terá, todo o ponto de vista é valido se tivermos em conta a relatividade epistémica e a lógica do sujeito, não se trata de um se sobrepor ao outro, trata-se de igualdade coisa que tu falas mas não praticas quando olhas para um cristão ou para qualquer outro tipo de crenças diferentes das tuas.

    Kalenda a felicidade perpetuada pela humanidade não é um estado que se alcança ou se adquire e já está, para já o que para mim pode ser felicidade, para ti pode não ser. Se repararmos na natureza tudo parece belo quando está em perfeita harmonia e equilíbrio, e nós o que somos? Natureza, o nosso sucesso depende do quão bem relacionamos a religião, a ciência, a tecnologia, a politica, a filosofia, a sociedade, porque o importante não é o que nos acontece, mas sim a forma como interpretamos.
    É esta a postura que procuro diariamente harmonia e equilíbrio, não gosto de extremos isso é um estado pelo qual já ultrapassei.

    Já agora teria todo o gosto que escrevesses um pouco de sobre “nível espiritual”. kalenda

  3. Joao Teixeira diz:

    Desculpem precipitar-me talvez neste comentário mas não consegui deixar de o fazer.

    Sei que ultimamente poderei ter sido um pouco agressivo quanto ao meu ponto de vista e à minha tolerância com o ponto de vista dos outros. Não me interpretem mal, não acho que a crença isolada de cada um seja pejorativa para a sociedade. O que cada um faz na sua privacidade não é de modo algum repercutido à escala mundial e nem muito menos eu tenho alguma coisa a ver com isso.

    Vamos ficar um pouco mais a cima nesta cova de conversa. O que eu tenho querido focar até aqui é o impacto da religião organizada. Vou tentar expressar o melhor possível o que tenho agora no pensamento.

    Poderei aceitar, ou poderemos aceitar, que fortunas sejam gastas em Igrejas quando existe uma população cada vez maior de ‘sem abrigos’? Não teria sido melhor aproveitado o dinheiro se em vez de se construir uma Igreja completamente nova aqui em Coimbra, ao pé do estádio, se tivesse construído uma espécie de armazém ou pensão para alojar os sem abrigos? Poderia perfeitamente ter um serviço de cafetaria e seguranças. Sem serem precisas grandes fortunas ter-se-ia criado um lugar para quem dorme na rua poder abrigar-se. Ter-se-iam criado postos de trabalho para garantir a segurança e a manutenção do local. Em vez disso, construiu-se uma Igreja para baptizar crianças que ainda nem sabem falar. Onde apenas uma restrita classe social lucra.

    Hoje me dia, há muitos sem abrigo a viver sob os tectos da Universidade, aos quais se lhes paga um quarto numa pensão quando há congressos ou conferencias importantes. Não podemos deixar que os doutores de fora vejam a miséria da nossa cidade, não é?…

    Certamente que restaurar uma obra como a Sé Velha ou a Sé Nova é bastante importante por motivos históricos. Mas fará sentido quando os cientistas em Portugal lutam por uma misera sala com janelas? Ou por uma mesa onde trabalhar? Eu ainda tenho uma mesa, mas não tenho janelas no meu local de trabalho. Pior do que eu, conheço muito boa gente que anda de mesa em mesa sem ter um lugar fixo onde trabalhar. Não há dinheiro. Mas para a catedral de Fátima já há dinheiro.

    Não é na crença individual de cada um que reside a origem destes problemas. É sim na crença em massa! Certamente o meu post foi o meu ponto de vista. Quem tá do lado de dentro da Igreja terá outro ponto de vista. Mas será que esse ponto de vista não é tão extremo quanto o meu? Ou talvez até pior? Acho que estás errado quando dizes que eu não tolero os cristãos. Eu não tenho problemas em conviver com cristãos, nem sequer penso nisso. Mas posso-te dar exemplos de cristãos que passaram a estar relutantes em conviver comigo quando se aperceberam que eu era ateu, ou quando vesti t-shirts com cruzes invertidas a dizer 666. Conheço também cristãos que não são relutantes em conviver comigo mas simplesmente têm ‘pena’ que eu seja ateu, e inevitavelmente ficam um pouco desiludidos. Mas eu não fico desiludido por eles serem cristãos.

    Talvez quando converse sobre o tema no café seja um bocado agressivo, acho que não estou preparado para ser confrontado com a fuga à discussão. Ou com a falta de interesse das pessoas. Mas as pessoas são diferentes eu não as posso julgar mal por isso. Tenho de pensar mais para mim e menos para os outros talvez.

    Acho que a nossa sociedade perde muito por haver religiões organizadas. E a única forma que encontro para ‘combater’ a religião organizada é confrontar pessoas singulares com a minha forma de pensar ou com o que fui vendo ao longo do tempo.

    Se bater sempre neste ceguinho trás felicidade ou não, não sei.

    Custa-me a viver no cinzento. Até agora tem-me custado a pensar em comunidade quando procuro evitar estas discussões. Essa postura de «harmonia e equilibrio» como tu referiste Bruno, na minha cabeça resume-se a cada um por si. Especialmente quando falamos nestes assuntos. Atenção que cada um por si não significa que eu não me importe com os outros. Repare-se que ainda estou a falar de sociedade!

    Eu sei que poderei não estar a ver as coisas na perspectiva certa, mas talvez tu te possas explicar melhor o que é isso dos «extremos» que referiste. Se é para aceitarmos simplesmente o ponto de vista dos outros, sem questioná-los, então porque é que não se aceitou o ponto de vista do Hitler? Porque é que se aceita o ponto de vista dos EUA? Porque que é que o mundo é a América e não foi o Hitler? Quando eu digo mundo digo o fluxo de movimentos de ideias, de acontecimentos num determinado sentido. Não sei se me faço entender. Por que é que temos de aceitar a construção de Igrejas quando os espaços académicos estão a cair de podre? Nem sei se o dinheiro para tais Igrejas vem dos meus impostos, nem sei se quero pensar em tal coisa.
    É do ponto de vista dos muçulmanos espacancar as mulheres por tudo e por nada. Direitos Humanos? Temos de aceitar esta atrocidade porque faz parte da sua cultura religiosa ou agimos porque vai contra os direitos humanos?

    Vou realçar aqui, uma vez mais, o tabu que se está a criar porque estamos a falar de religião! Se eu tivesse a argumentar que o Benfica era um clube ruim por isto e por aquilo ou que o Sporting era melhor, ou vice-versa, certamente a discussão ia ser bem acesa e sem tabus. Mas é religião, quem está do outro lado da janela tem outro ponto de vista e eu tenho de me calar porque tenho de respeitar esse ponto de vista independentemente das implicações que isso tenha a nível social.

    Uma sociedade completamente tecnológica teria também as suas falhas. E certamente precisaria do equilíbrio com a filosofia ou a espiritualidade. Eu sou apologista disso. Mas não com a religião organizada.

    Não estou confuso relativamente às palavras de «harmonia e equilibrio» e «extremos» mas sim relativamente ao que isso significa como postura na vida. Não estou só a falar do teu comentário Bruno, ontem tive uma conversa importante, quem esteve do outro lado da conversa sabe o que estou a falar. Tenho estado a pensar nisso. Se olhar para trás, nos últimos eu vivi em harmonia com a religião e com a politica e a economia e a filosofia, simplesmente não me preocupava com elas. Tenho receio de se ao eu adoptar uma posição de ‘harmonia’ com esses campos todos, principalmente religião e politica (politica estou completamente fora) não estarei outra vez a ficar apático a estes temas. Porque se procurar apenas a felicidade pessoal, ou, como analogia, o sustento da própria casa, não estarei a ser igual aos que ‘acuso’? Não é o objectivo do Banco Central obter a sua felicidade? Não é o objectivo da Igreja obter a sua felicidade?

    Os soldados que vão para a guerra nem se apercebem que vão matar famílias iguais aquelas que deixam nas suas casas. Não se apercebem que cada bala que disparam no campo de treino é um familiar seu que perdem. Eu não quero salvar o mundo todo, nem sei como nem mesmo que soubesse não seria capaz. Mas cada vez que vou tomar o pequeno almoço às cantinas e vejo um homem dormindo no chão à entrada, penso para mim: “que devo fazer?”. Depois apercebo-me que o pouco que há de bom na nossa sociedade é caridade, vivemos sempre da caridade. Nem vou entrar por aqui sequer.

    Uma vez disseram-me que Deus apaga a memória dos que vão para o céu para que estes não sofram com os entes queridos que foram parar ao Inferno. Também já ouvi a versão de que continuas a lembrar-te deles. Seja qual for a versão, eu não quero ir para céu quando vou saber que pessoas de quem gosto estão a arder no inferno ou que me vou esquecer delas. Esse céu tornar-se-ia um inferno para mim. Da mesma forma custa-me ir tomar o pequeno almoço às cantinas (veja-se são 0.80€) quando há uma pessoa que dormiu no meio do lixo na rua. E depois ligo a televisão e dá 40 minutos no telejoarnal sobre a primeira liga, ou vem alguém falar que Deus não aceita os homossexuais. É o ponto de vista da comunicação social e da Igreja, eu tenho de aceitar ou viver à parte.

    Eu posso ser extremo, mas eu não me junto para adorar ninguém, junto-me para discutir, conversar, rir, conviver.

    Não quero dizer com este discurso todo que tenho razão, quero apenas expressar o que vai dentro da minha cabeça neste momento.

    Muito provavelmente daqui em diante irei ficar muito mais calado sobre estes assuntos referentes à religião.
    Mas acho que esta euforia minha deve-se mesmo à minha maneira de ser, não é a toa que quase toda a gente que convive comigo a diário já usa o Ubuntu. Custa-me a aperceber-me duma realidade que acho melhor que a anterior e ficar calado só para mim. O Ubuntu foi só um exemplo. Mas esse é o meu erro.

    Uma vez um pastor evangélico esclareceu-me: “se tiveres a solução para o problema de uma pessoa e não a ajudares só porque ela não te pede ajuda, então és também culpado pelo que lhe acontecer”.

  4. Kalenda diz:

    Caro 4zbruno,

    A felicidade só existe no individuo e não na Humanidade, pois sem ele elas não existem.

    Serei levado a concordar contigo se me deres um exemplo de felicidade que seja boa para ti mas não para outro Ser.

    Perfeição, harmonia, equilíbrio, são singularidades como tal não acredito muito que a felicidade venha dai. Pelo contrário julgo que será mais fácil de se atingir a felicidade, se entendermos e aceitarmos que tudo está em permanente mudança.

    Concordo plenamente contigo quando dizes que tudo depende da forma como “interpretamos” (diria também, como vemos) o mundo. Infelizmente, a nossa interpretação/visão raramente corresponde á realidade, a sociedade encarregou-se de nos envolver em demasiados filtros.

    Os extremismos não levam a lado nenhum é um facto, só embrutecem e como tal geram brutalidade. Também acredito que o melhor é tentarmos trilhar o caminho do meio (não sei se será o mais equilibrado ou harmonioso).

    Quanto aos níveis (físico, emocional, social, intelectual e espiritual) pretendo só dizer que sejam de satisfação. Não é minha intenção tentar quantificar um “estado”, ou mesmo opinar sobre isso.

    Respondendo mais directamente á tua pergunta não sei o que são níveis espirituais, se bem que já tenha ouvido falar disso. Pessoalmente dou mais importância ao “caminho” do que ao “nível”.

    Já agora … Atingir a felicidade e não ter sofrimento, é a mesma coisa ? O que achas ?

    Abraço …

  5. 4zbruno diz:

    Mas eu admito que existe uma correlação entre indivíduo, sociedade e felicidade.

    Não consigo qualificar felicidade boa ou má, mas sim falsa ou verdadeira, vou dar então dois exemplos e deixo á tua interpretação;

    “Com tanta gente pobre e a dormir nas ruas, eu com casa e carro sou mais que feliz”

    “Sei que fazer desporto faz bem, mas não me apetece”

    “Perfeição, harmonia, equilíbrio, são singularidades como tal não acredito muito que a felicidade venha dai. Pelo contrário julgo que será mais fácil de se atingir a felicidade, se entendermos e aceitarmos que tudo está em permanente mudança.”
    Ou interpretei mal, ou estás-te a contradizer, numa frase dizes que tais conceitos subjectivos (concordo), não acreditas que levem até ou se alcance a felicidade através destes (não concordo), julgas que é mais fácil alcançar a felicidade através destes (concordo), se tudo não estivesse em permanente mudança, talvez a felicidade se alcançaria como um estado permanente e estático.

    Quando refiro harmonia e equilíbrio, não digo que a felicidade vem da harmonia e do equilíbrio levada ao extremo, falo de uma correlação simbiótica entre todas aquelas áreas ou níveis que referiste e muitas mais.

    Como dizes, “atingir a felicidade” entendo como um processo, e nesse processo existe necessariamente sofrimento. Por exemplo os fenómenos naturais (furacões, tsunamis), são necessários para reequilibrar o meio natural, revitalizar terras etc.

    Não ter sofrimento não é sinónimo de felicidade, a felicidade é um estado subjectivo, o simples facto de estarmos perante a ausência de sofrimento não implica necessariamente que estejamos no estado de felicidade, eu posso ser feliz com sofrimento tudo depende da minha perspectiva e como interpreto as situações.

  6. Kalenda diz:

    4zbruno

    Obrigado por partilhares as tuas opiniões, e teres dado resposta às minhas interrogações.

    Certamente que muito haveria para discutir sobre esta temática que é fascinante, mas uma discussão através deste meio demoraria uma eternidade.

    Abraço …

  7. 4zbruno diz:

    lol não tens de que agradecer, farei sempre com todo o gosto! Por muito errado que estejamos será sempre benéfico para todos.

    concordo contigo, este meio apenas foi criado pela inconsistencia e irregularidade de outros meios, mas faremos o possivel para estar á altura =)

    Fica bem!

  8. Isabel diz:

    Se tivermos em conta que aquilo que o Teixeira disse neste post é um extremo, então eu estou totalmente de acordo com o extremo dele. Aqui há tempos ouvi nas notícias que o Santuário de Fátima obteve lucros de milhões de euros, e quando falo milhões julgo já estar a falar muito por baixo do que provavelmente ouvi. Isto se os lucros que vieram para a praça pública forem os verdadeiros e não forem ainda maiores (o que me parece até bastante provável). Ora assim como o Teixeira, eu não sei de onde vem o dinheiro para a construção de novas Igrejas, mas aqui na minha santa terrinha, quando se pretende fazer alguma coisa onde a Igreja esteja implicada, vem indivíduos pedir às portas das pessoas para que elas contribuam para a benfeitoria. Portanto, a pergunta óbvia é: para onde raio vai o dinheiro dos lucros do Santuário de Fátima, se não vai para as paróquias deste país??? E quem diz o Santuário diz outro qualquer representante da Igreja. Nem quero sequer pensar quanto terá de lucros o Vaticano. Deve ser uma quantidade tão infinitamente pequena que nenhum pobre ou faminto ou sem abrigo lhe põe a vista em cima. Agora o engraçado disto é que no final são sempre os coitadinhos. Deus nos livre de falar mal da Igreja e tudo o que ela representa, Ámen!

    PS: João, voltas a falar mal do Benfica outra vez e não sei se deixo passar em branco😛

  9. Kalenda diz:

    Interessante esta abordagem aos lucros da Igreja, talvez fosse objecto de alguma investigação se houvesse tempo da minha parte, conto-vos no entanto esta pequena “história” …

    “Dizem que o General Charles de Gaulle indignado com os lucros do Santuário de Lurdes se lembrou de taxar as esmolas, acho quem 50%, coincidência ou não Fátima começou a ter mais importância no mundo católico (por acaso o imposto também mais baixinho do que em França)”

    Não me levem a mal é só uma história que ouvi …😉

    Abraço …

    P.S. Para quem esteve menos atento às noticias do BPP, relembro que grande parte do dinheiro que foi necessário para a construção da nova Basílica estava lá depositado, sendo um dos maiores depositantes.

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