Depósitos e Empréstimos Bancários: O que realmente acontece

Mosler_vault_door_2Seguindo a clarificação que nos é dada em Money as Debt II, vamos rever o que acontece no depósito e empréstimo de dinheiro entre um indivíduo e um banco.

Depósito:

Quando depositamos o nosso dinheiro num banco costuma-mos dizer que é ‘o nosso dinheiro que está no banco’. No entanto, isso não é verdade.

Ao depositarmos dinheiro num banco o que estamos na verdade a fazer é a dar o nosso dinheiro ao banco. O banco então emite um ‘certificado’ no qual promete devolver-nos o dinheiro quando assim o quisermos. Esse certificado é visto pelo utilizador como a ‘conta no banco’, p.e. 100€.

Aqui a palavra depósito é incorrectamente utilizada. O que na verdade o depósito constitui é um empréstimo do individuo para o banco. Nós emprestamos dinheiro ao banco, dinheiro esse que o banco promete pagar-nos de volta. Por isso, o que a nossa conta bancária representa é o dinheiro que o banco nos deve e a sua promessa em pagá-lo.

Daí ao depositarmos o dinheiro no banco o dinheiro passa a ser do banco, para fazer com ele o que bem entender. Nenhum do dinheiro que está no banco é do utilizador.
É por isso que o banco paga juros sobre o dinheiro lá ‘depositado’, nós emprestámos o nosso dinheiro ao banco.

Empréstimo:

Quando pedimos um empréstimo a um banco o que fazemos é assinar um contracto no qual prometemos pagar o que pedimos (P) mais os juros (J). Por outro lado, o banco promete dar-nos o que pedimos (P). Ao assinar o empréstimo a quantia P é acrescentada à nossa conta bancária. Assume-se por omissão, apesar de errado, que esta quantia representa dinheiro. Na verdade, o que apenas representa é uma promessa da parte do banco em pagar esse dinheiro.

“O facto de ser uma promessa indica exactamente a ausência o objecto prometido. Se assim não fosse, porque teria de ser prometido?” – Money as Debt II.

O item para o qual o empréstimo foi cedido corresponderá ao bem colateral a ser pago caso o P+J não possam ser pagos pelo indivíduo.

Mas vejamos um exemplo. Quando um indivíduo pede um empréstimo ao banco para comprar um carro, no momento da criação do contrato o carro é usado como dano colateral. No entanto, a essa altura o carro ainda não pertence a nenhuma das partes, banco ou indivíduo. Um empréstimo bancário é assegurado por bens que não pertencem ainda a nenhuma das partes, pertencem a terceiros que ainda não estão envolvidos no processo. Assim o indivíduo assinou um contracto com o banco no qual garante pagar, como dano colateral, um carro que ainda não possui.

Por isso podemos perguntar: porque é que o banco não compra o carro e depois vende-lo ao indivíduo que procura o empréstimo pelo preço de compra mais juros? Pela simples razão que no momento de assinar o contracto o banco vai, tal como o individuo, “de bolsos vazios”.

Vamos admitir que o dono do carro tem conta no mesmo banco que o comprador. Se o dono do carro aceitar o pagamento em cheque ou por transferência bancária, por exemplo, o único que fisicamente acontece é a transferência de uma promessa de pagar P ao primeiro individuo para uma promessa de pagar P ao antigo dono do carro. Neste processo o banco, sem investir qualquer dinheiro físico, apenas uma promessa, ficou a ganhar os juros sobre a promessa efectuada, juros esses que serão pagos com o trabalho do indivíduo que pediu o empréstimo.

Assim, o banco criou poder de compra a partir do nada.

Mesmo que o original dono do carro possuísse uma conta num outro banco, o fluxos de depósitos e empréstimos que ocorrem entre todos os bancos faz com que o sistema de múltiplos bancos funcione como um único banco. No final nenhum banco deve nada a outro pois o crédito depositado acaba por igual o crédito levantado. Por isso, desde que os bancos continuem a receber depósitos de outros bancos podem sempre continuar a criar crédito para ser depositado em outros bancos sem ter necessidade de investir qualquer dinheiro no processo e angariando os juros que daí advém. Neste acto o banco cria continuamente poder de compra, ao emprestar dinheiro que nunca existiu. O que cria a continuidade neste sistema é exactamente a procura de crédito por parte do público, pelo que um cessar desta procura reduziria os depósitos num banco fazendo com que o banco passasse a dever dinheiro aos outros bancos correndo o risco de entrar em falência. Caso isto a acontece-se, todas as promessas de pagamento por parte dos bancos (depósitos nas contas individuais) seriam quebradas e o público perderia o ‘seu’ dinheiro.

Essa é a razão pela qual se todos os clientes de um banco forem simultaneamente levantar o seu dinheiro o banco abre falência e a maioria das pessoas perdem o seu dinheiro.

6 Responses to Depósitos e Empréstimos Bancários: O que realmente acontece

  1. Luís Poço diz:

    olá jonny!
    bom post
    Pena é que em relação aos empréstimos bancários o “público” encontra-se, derivado ao sistema, condicionado ao mesmo, perdendo todo o poder de negociação com o próprio banco, pois, a maior parte do dito público não teria nada senão pedindo ao banco. Então é este o nosso ponto mais fraco, o facto de escolher aceitar tais condições num empréstimo, pagando uma casa durante uma vida ou escolher não ter nada.

  2. Oi Luís,

    É verdade, vivemos num sistema em que é super díficil fugir ao crédito.

    Com o teu comentário veio-me à cabeça: o que terá surgido primeiro, a casa ou o crédito?
    Depois fiquei a pensar se os preços que as casas têm hoje em dia serão inflacionados exactamente para promover o crédito, já que é a base da nossa economia.

    Abraço

  3. marina diz:

    os meios liquidos de pagamentos e os depositos bancarios representam as disponibilidades imediatas da empresa?

  4. marina diz:

    Os meios líquidos de pagamento e os depósitos bancários representam as disponibilidades imediatas da empresa?

  5. Matias diz:

    Gostei muito da informação! Em realidade, são as pessoas as que realizam empréstimos bancários para os bancos! Parabéns pelo site!

  6. Felisberto muanha diz:

    Valeu

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