A evolução em directo: Os lagartos das dunas brancas

Para um amante de Biologia não existe nada mais fascinante que contemplar o processo evolutivo em plena acção. Isso aconteceu com a doutora Erica Rosenblum, da Universidade de Idaho, que há cerca de uma década estuda os lagartos do deserto de White Sands, no Novo México, e descobriu que várias espécies aclararam os seus tons de pele em apenas uns milhares de anos e agora facilmente passam desapercebidos nas areias brancas do deserto. Mas a sua descoberta é ainda mais interessante: espécies diferentes chegaram à mesma solução através de mutações diferentes, é como se a Natureza encontrasse sempre uma saída!

O processo geológico que formou este deserto foi bastante rápido e sucedeu à apenas 6000 anos. Da mesma forma que já aconteceu noutros ambientes, esta mudança súbita colocou os lagartos de cor castanha numa posição desfavorável: começaram a ser mais visíveis  pelos predadores do que aqueles cuja pele era um pouco mais clara e que assim eram favorecidos para sobreviver. Até aqui, o processo recorda-nos o caso das borboletas de Manchester (Biston betularia), cuja distribuição de cores da população acabou alterando-se do predominante branco para o castanho escuro. A fuligem das fábricas que escurecia as árvores e matava os líquenes brancos dos troncos onde as borboletas habitavam, obrigou as borboletas que tinham originalmente cor branca a terem menos hipóteses de sobrevivência. A selecção natural acabou por escurecer toda uma espécie.

No entanto o estudo da doutora Rosenblum, publicado em Dezembro em Proceedings of the National Academy of Sciences, têm outras implicações. A surpresa vem pelo facto de que são três espécies de lagartos que mudaram para o branco. Através do seu estudo de ADN, Rosemblum e a sua equipa determinou que em duas delas, a mudança era genética, mas uma terceira chegou ao mesmo resultado mas por uma vía diferente.

Em concreto, esta mudança produz-se no gene que activa a melanina (Mc1r), que actua como um “interruptor” da cor da pele, segundo Rosemblum, mas em duas das espécies o receptor está situado num sítio “incorrecto” da cadeia e assim o gene é dominante, enquanto que nas outras espécies o gene é recessivo e não necessita de cópias ou gerações.

O fascinante deste estudo, é que se trata de uma curiosa variante do que em Biologia se chama de “Convergência evolutiva”, o processo pelo qual espécies diferentes obtêem rasgos semelhantes ou soluções por vias distintas umas das outras. De uma forma simples trata-se do mesmo mecanismo pelo qual diferentes processos levaram ao aparecimento dos olhos (cefalópodes e vertebrados), sistemas de ecolocalização (morcegos, golfinhos e pássaros), ou soluções morfológicas semelhantes (urso formigueiros e porco formigueiro).

Em definitiva, o estudo dos lagartos brancos do Novo México, aporta para outra prova de que o processo evolutivo é uma força imparável e actual em muitos campos ao mesmo tempo, gerando soluções distintas. De facto, o mesmo processo continua em marcha em muitos outros lugares, como na zona vulcânica próxima a White Sands, onde se estuda uma espécie de ratos que agora são negros para se confundirem com a lava.

Neste mesmo deserto, existem também algumas variedade de grilos, ratos e aranhas que também estão adaptando a sua coloração para um tom mais claro.

Fonte: 1, 2, 3, 4

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