“Por detrás da gripe A” por António Bagão Félix

Agora que os noticiários já quase não falam da gripe A, surgiu a informação de que os ganhos da indústria farmacêutica por causa e em função desta estirpe (cinco mil milhões de euros, fora a valorização das acções, o que corresponde a cerca de 1,5 vezes o PIB do desgraçado Haiti!) estão sob suspeita do Conselho da Europa que, aliás, vai debater e criar uma comissão para avaliar a pressão que, alegadamente, poderá ter sido exercida sobre a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Compreendo todas as cautelas e prevenções sobre o que se anunciava como uma grave pandemia mundial. É daquelas situações em que mais vale errar por excesso do que por defeito. Mas hoje, face à avaliação parcial que já se pode fazer, estaremos provavelmente perante um claro exagero de previsão. Basta recordar que a OMS chegou a aventar a hipótese de poder haver mais de 70 milhões de mortes e até agora terem-se verificado menos de 13000!

Em Portugal, onde nos foi permanentemente incutido um cenário alarmista e negro, com conferências de imprensa em catadupa “por dá cá aquela palha” e com a previsão de encerramentos temporários desde escolas a fábricas até igrejas e práticas desportivas, houve até agora 83 mortes, valor muito aquém da gripe sazonal (2000 óbitos por ano). Ao menos que esse exagero tenha trazido uma vantagem adicional: a de incitar e habituar as pessoas a uma maior cultura de higiene e profilaxia.

As vacinas e antivirais adquiridos pelos países mais desenvolvidos sobejam por todo o lado. Primeiro por pouca certeza da OMS (duas doses da vacina primeiro e logo a seguir apenas uma), depois porque as pessoas se aperceberam de que a situação não seria tão trágica quanto se previra. Em França, por exemplo, compraram-se 94 milhões de doses e só se usaram 5%! Os grandes beneficiários desta gestão desastrosa foram, de facto, os laboratórios!

Em escala logarítmica, repetiu-se a histeria sanitarista que, nos últimos anos, já se viu com a gripe das aves, a doença das vacas loucas e outros vírus. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Nesta voragem de psicose colectiva, a técnica do pavor não é necessariamente boa conselheira…

Sou dos que pensam que a relação entre a OMS e a indústria da saúde deveria ser mais cristalina e escrutinável. Só por ingenuidade é que se pode achar que não há pressões num sector que move rios de dinheiro e de interesses.

Assim, o que se constata é a uma verdadeira “pandemia de lucro” embora paradoxalmente concentrada, que evidencia como poderosos interesses industriais e económicos são capazes de influenciar os decisores institucionais, os media e, por fim, os políticos.

A gripe A foi, aliás, sempre abordada como um problema de saúde focado nos países do 1º mundo, enquanto continuam a morrer diariamente milhares de pessoas nos países pobres com malária que se pode facilmente prevenir, com cólera e outras afecções evitáveis com um simples soro. Estes problemas, porém, nunca são notícia nem movem a comunidade internacional porque não são economicamente atractivos e lucrativos.

in Económico

2 Responses to “Por detrás da gripe A” por António Bagão Félix

  1. jmct diz:

    Um autêntico evangelho de verdade! Só mesmo por ingenuidade é que não se associa o lucro a tais acções.

    Mas com isto da gripe aconteceu algo estranho, não sei se repararam. Também não sei se reparei bem, mas foi isto que notei, e achei interessante:

    Houve muita gente mesmo a dizer não à vacina, mas porquê?
    O pessoal dito da “conspiração” tem uma boa razão para dizer não às vacinas. Mas o pessoal que não segue nem concorda com os assuntos da “conspiração” porque é que disse não às vacinas? Todos os meios de comunicação e pessoas responsáveis apoiou e tudo fez para que as vacinas fossem tomadas.. mas no entanto não foi isso que se viu.

    O que quero realçar aqui é um assunto muito esotérico, o conhecimento colectivo. Não sei se o posso chamar assim mas não me lembro de outro nome agora. Que não é mais que a informação ou opinião que certas pessoas adquirem quase espontaneamente só porque outras pessoas já o adquiriram.🙂

    Abraços

  2. “Assim, o que se constata é a uma verdadeira “pandemia de lucro” embora paradoxalmente concentrada, que evidencia como poderosos interesses industriais e económicos são capazes de influenciar os decisores institucionais, os media e, por fim, os políticos.”

    Ah pois Bagão, é que se um país se recusa a influenciar.. eu já nem dizia influenciar mas sim controlar, leva nas orelhas, tanto pelo povo nacional aterrorificado com a ideia do próprio sistema nacional de saúde não fazer IGUAL aos outros países, também pela comunidade exterior e sobretudo veriamos Portugal sendo, de algumas formas, sancionado ou ameaçado pelas indústrias farmaceuticas e outros poderes invisíveis.

    A gripe A foi, aliás, sempre abordada como um problema de saúde focado nos países do 1º mundo, enquanto continuam a morrer diariamente milhares de pessoas nos países pobres com malária que se pode facilmente prevenir, com cólera e outras afecções evitáveis com um simples soro. Estes problemas, porém, nunca são notícia nem movem a comunidade internacional porque não são economicamente atractivos e lucrativos.

    Ah pois Bagão, não só no que diz respeito à saúde, mas também à alimentação, creio ser possível alimentar a malta toda, mas não convém! isso ia resultar num aumento populacional mundial brutal, coisa que não interesse aos iluminados..

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: